Archive for fevereiro, 2011


A fornalha

– Ei papai – disse a Cyn – Porque está tão frio?
– Hum? A fornalha está acesa querida, não está frio. – disse seu pai enquanto virava as páginas do caderno de esportes.
– Ah…
Era inverno e seu pai costumava deixar toras pequenas ardendo em chamas dentro da pequena fornalha de metal. A fornalha lembrava o dorso de uma armadura medieval para uma pessoa gorda, com sua barriga enorme de cerveja e Bacon, preta e suja. Seu pai passava pouco tempo cuidando de sua manutenção e quando a lenha dentro de seu interior não ardia, uma brisa fria vinda do lado de fora, corria por dentro de sua tubulação fazendo-a ulular. Cyn odiava aquela fornalha.
– Papai, é normal fazer este frio aqui dentro?
– Claro filha, papai jogou bastante lenha dessa vez, para nos manter bem aquecidos. Vá pegar uma blusa se estiver com tanto frio, mas garanto que você logo logo vai querer tirá-la. – Virou uma página do jornal e olhou por cima do papel para Cyn. Sua menininha estava crescendo,  já estaria começando a sair do jardim de infância começaria a estudar no ensino fundamental.
Cyn caminhou devagar pela sala e passou pelo corredor e parou, lá estava ela, no fundo do corredor, sorrindo com aqueles dentes de metal sujos, convidando-a para chegar mais próximo e sentir seu calor, se aquecer num abraço. Cyn engoliu seco a saliva que parava em sua garganta e virou o corpo para subir a escadaria.
Cynthia…
Ela parou.
Cynthia. Estou. Com. Fome.
Ela fechou os olhos e subiu o mais rápido possível para o quarto.

Ela ignorava os chamados e pedidos que vinham do andar debaixo. A Fornalha implorava para que descesse, primeiro com chamadas vagarosas cheias de manha como se falasse com um pequeno animalzinho de estimação, depois vieram os gritos, depois os xingamentos. A Fornalha estava com fome e ela com frio. Sabia que por mais que quisesse a fornalha não iria parar de fazê-la sentir frio. Precisava alimentá-la se quisesse se sentir confortável. Foi assim com os seus lanches que seu pai embrulhava antes de levá-la para a escola. Com os insetos do sótão, com o Sr. Mankis, o rato de estimação da escolinha primária e fora assim também com o Sr. Fluffles, o gato angorá de seu pai. Seu apetite parecia ficar cada vez mais voraz e seu frio mais cruel.
Era noite quando Cyn desceu as escadarias, as vozes já haviam extinguido-se, seu corpo tremia, seus lábios estavam azuis. Apenas frio. Isso é como ela via o dia a dia dela, passando frio enquanto outros aconchegavam-se no calor. Isso a deixava nervosa. No último degrau, Cyn olhou para a Fornalha, ela estava quieta, a chama que antes queimava em seu interior agora não passava de uma simples brasa, apenas chiava como se toda a força vital estivesse esvaindo de suas entranhas, virando cinzas. A menina fechou os olhos e andou até a Fornalha, caiu de joelhos e olhou para dentro da janelinha.
– Estou morrendo de frio. Pare com isso Sra. Fornalha.
No escuro das cinzas, uma voz lenta e gutural sussurrava.
Fome. Me. Alimente. Frio. Passa.
­- O que você quer comer?
Você. Saber.
Ela fechou os punhos, olhou para a escadaria e sorriu.
Isso. Me. Alimente.

George estava dormindo quando Cyn abriu a porta de seu quarto, a luz do corredor e o barulho da dobradiça velha rangendo o acordaram. Ele levantou a cabeça do travesseiro e ela estava parada ao pé da porta, imóvel. Estava frio, as chamas deveriam ter apagado e as tubulações antigas da casa deveriam ter congelado a esse ponto, pensou George. Cyn caminhou devagar em direção a cama de seu pai.
– Cyn? O que foi filha?
– Não consigo dormir, está muito frio papai.
– Vem, deita aqui na cama quente do papai, enquanto ele vê o que aconteceu.
George toca na mão de sua filha ao ajudar ela a subir na cama. Gelada, como a mão de um morto. Ele coloca os chinelos e beija a testa de sua filha, enquanto a cobre com a colcha. Igualmente gelada, como beijar um pedaço de gelo.
– Papai já volta.
Cyn apenas meneia a cabeça e grunhe uma afirmação, “Tudo bem”. George ergue seu corpo e sente o frio atravessando o pijama azulado. Saindo do quarto, deu uma olhada no termômetro preso a parede ao lado da escadaria, indicava – 4ºC.
-Deus, como foi gelar tanto assim? – George sentia o frio correndo pelo corredor, o assovio lamuriento das tubulações congeladas trazia uma sensação de desconforto mesmo andando pelo corredor aceso. Desceu e parou em frente à fornalha, abriu a portinhola de metal e olhou o conteúdo. Alguém parecia ter jogado água e apagado o fogo que havia lá dentro. As cinzas estavam semi-congeladas, indicando que fora recente. Ele coçou a cabeça, confuso e virou para levantar e pegar mais lenha.
Ele não viu quando a faca de cozinha desceu em sua garganta.

Ela estava a alimentando, jogava pedaço por pedaço em sua boca de metal. Ela ouvia o barulho da carne de George estalar dentro de sua barriga metálica. Acendendo lentamente o fogo que traria conforto, ouvia o grunhir dela, mastigando a carne cremada e o roer dos ossos carbonizados. Pouco a pouco satisfazendo-se, sua fome saciando e sua voz ficando inaudível. Estava indo dormir agora, ter seu sono de rainha. Enquanto ela abria, cortava e arrancava pedaços de George. Fizera o que ELA mandara.

Mas mesmo assim, sentia frio…

He crossed the narrow street rushing as he could, vaulting piles of junk and loose pieces of stone that once were fixed to the ground. Parts of arrows were pierced into his flesh and its broken ends were difficulting his godlike movements. He looked behind, and could see the shadowed forms of two humans enlarging at the walls as they got closer. He turned his body around to the left and dashed, stepping on a tip of ceramic vase and jumping into a small, glassless window highly above without thinking. As he fell on the cold wooden floor he gave a little cry of pain, feeling his flesh being pierced even more with those thin pieces of copper. Their voices were beginning to become louder as they got closer, and closer to where he was. “Where is he?” said one of the voices, a loud and clear voice.
“Where did he got into?” Asked another voice. A greedy, strong voice “I want him dead!”
He smiled seeing those strange and distorted shadows and the tip of their lances passing by the window. Coughing blood and feeling terrible exhausted for the almost unending chase, he gathered the remaining of strength and willpower that was running into his blood and got up to his feet. The room was smaller than a little horse cubicle in a poor stable. A little child bed was in the extreme left of the room, the homemade mattress was cut open and his rotten straw content was spilled through the floor, as an overthrow wardrobe which its doors where wide open and filthy poor man clothes where scattered around. As he thought, that house has already been turned upside down and looted. He sitted on the wardrobe, gathered a little piece of cloth and wrapped around a piece of wood, biting it hard as he could as he tore those remaining arrows from his flesh. Slowly and painfully, he took it off almost every arrows that have been pierced through his chest and back, crying so quietly that remembered the crys of little wolf cubs when they are away from the mother. He was tired, his wounds that usually heal faster, as his regeneration were different to any living being, were not showing any kind of healing. Only dripping more and more blood.
He listened their steps as they passed the fallen door outside, crossing the room and killing those survivors that the last . They were crying out his name, Ranfield. He saw as their boots crushed down the wooden door as it fell ahead, the gush of wind that made the straw and light pieces of cloth fly form the ground and spin around. Their lances and swords being held up to his face, their ugly, bloodsoaked faces filled with hate, anger, and their eyes seduced by bloodlust. War make this, make humans become animals, make rationality become only achieved by spilling blood and killing innocents. Make minds be controlled and personal needs be forgotten. All by the Cause.
And the blade fell.

Just another sword cutting the innocent flesh.