Corri.

Não havia muito que fazer naquela situação.

Desculpe Mary, desculpe por lhe deixá-la para trás;

Eu, eu. Eu não queria…

Corria sem parar, as ruas, cobertas deles.

Pessoas gritavam e lutavam para se soltar das mãos deles.

Famintos; é assim como os chamo.

Famintos.

Cuja fúria lembrava cães raivosos ao se deparar com um pedaço de carne,

Após dias e dias de longa miséria.

Suor escorria pela minha testa, as axilas queimavam.

Estou fora de forma há muito tempo.

Subo na capota de uma viatura de polícia, enquanto chuto a face de um deles.

Deus, o que acontece aqui?

Um mar de corpos, alguns cremados, outros alvejados, outros contundidos.

Feridas expostas e infecciosas, buracos de bala, cortes em carne viva.

Decomposição, urina, fezes, medo e suor.

Misturados num frenesi absurdamente primitivo;

Deus, o que fizemos?

Gritos, sirenes, tiros, choros;

Mary espero que você esteja bem.

Eu sou um covarde por ter te deixado lá.

Na mesa do bar antes deles entrarem correndo pela porta,

Quebrando a vitrine de vidro temperado com uma das mesas que ficavam do lado de fora.

Olhei para você Mary.

Oh, não. Seus olhos estavam pasmos, enormes e tão indefesos.

Puxei sua mão, mas você não respondia,

Ficou a olhar o tumulto lá fora.

E aos clientes serem atacados.

Como se presenciasse alguma cena de um filme B.

Corro agora pelo beco ao lado do bar.

Três deles correm atrás de mim.

Como correm, mesmo estando naquele estado deplorável;

Físicos radicalmente destruídos, corroídos.

Mas ainda sim, alcançando-me.

Subjugando-me pela força de seus braços, rasgando minha carne;

Mordidas mastigando meu pescoço e peito, meu crânio batendo contra o asfalto.

O gosto do sangue em minha garganta.

Oh deus, oh, deus, oh deus que dor… façam-nos…

Parar

Por favor.

A dor fustiga meus órgãos, dissolvendo-os em um calor ácido.

Os músculos se enrijecem, o calor se esvai por entre meus dedos;

em ondas lentas e calmas.

Somente o coração bate, e bate rápido e forte.

Forte, rápido, descontrolado, num ataque cardíaco.

Adrenalina grita em minha veias, o frio vem logo,

Junto com essa dormência demente, incapacitante.

Os dentes e mãos se soltam de meu corpo, largam-me para correr atrás de uma mulher.

Não sinto mais o frio do asfalto molhado,

Não sinto mais o frio do meu suor,

Não sinto o calor de meu sangue,

Não sinto nada.

Um eterno vazio me consome,

Me corrompe, me…

Mary, por quê?

Eu ia lhe pedir em casamento.

Sabe, eu estava com a aliança em meu bolso,

Só estava esperando o jogo do Manchester acabar e todos ficarem quietos.

E chegaria a você e pediria a você em casamento.

Fiquei imaginando esse dia, seu sorriso, as lágrimas de felicidade.

Mas não, eu fugi…

Quem sou eu para merecê-la?
Sou um covarde, não é?

Após eles entrarem, infestando o local com seus corpos e atacando as pessoas,

Tentei te puxar não é?
Por favor – gritava feito inútil – Vamos, corre!
Mas… Você não se mexia.

E então um tiro, alguém deu um tiro e você soltou minha mão.

Soltou minha mão e… E… Correu para a rua.

Tapando suas orelhas com as mãos.

Por que correra para a rua?

Sumindo em meio aquela multidão histérica?

Porque soltou de minha mão? Não quis me seguir?

No final você não gostava de mim?
Não iria aceitar meu pedido de casamento?
Mary por quê? POR QUÊ?!
Inferno…
Ahhhhh… Inferno…
Vou fazê-los pagar por isso.
Vou fazer todos pagarem por isso.
Derramar meu sangue, me machucarem desta forma.

Me frustrarem, me corromperem.

Fome, sinto fome, meu corpo treme.

ah… ouço um choro,

Um cheiro bom.

Medo.

Sim, vou me levantar daqui.

Procurar… Alguém…

Acabar com essa fome, ahh…

Sim, estão correndo.

Correndo de mim…

Isso.

Corram;

Tenham medo…

de mim.

Tenho

de

comer

algo

Fome.

———————————————————–

– Ash? Você está ai? Alô?

Uma mão passou na frente de seus olhos, tirando-o de seu transe cada vez mais frequente. Piscou duas vezes seguidas e levantou a cabeça, seus olhos estavam secos e o pulso doía de tanto escrever. Repousou a caneta de ponta fina e o pequeno bloco de notas da Ação e Reação no colo e olhou para Janne.

– Oi? –

– Oi? – Janne olhou para ele, franziu o cenho e fez um bico que sempre fazia quando estava com raiva. – Ash, você sabe o quanto eu odeio quando você me deixa falando sozinha. Aliás, me deixou falando sozinha por uns quinzes minutos apenas respondendo “Hum; sim; claro.” E ainda mais quando olho você está enfiado nessa porcaria de caderno.  Dá para parar um pouco de escrever? Pensei que tinha escolhido passear comigo para esquecer um pouco da pressão da cidade e não para escrever.

– Mas foi essa a razão Janne, mas você sabe muito bem que esse caderno é…

-… Sua maldita terapia contra a sua maldita síndrome de Glas-Wilssen, eu sei. Inferno como sei. Mas isso me irrita às vezes, não dá para você ser um pouco normal? Nem que seja pelo menos para conversar comigo por um instante?

– Tá, não toco mais nesse caderno enquanto estivermos no carro está bom? Senhorita Peitão? – resmungou Ash.

– O quê?! – Gritou Janne quase batendo num carro que vinha na contra mão. Torceu o volante para o lado e o carro voltou para a pista da direita, ficou sambando por um tempo no asfalto e depois voltou a andar em linha reta. O velho Ford Chevy 1964 já não rodava mais com tanta facilidade, mas Janne jamais largaria mão daquele que ela chamava de “Minha Caranga”. – Do que me chamou? –

– O que você tem na cabeça, quase nos matou! Eu disse senhorita, Atenção! Você estava saindo da faixa, oras. O que você pensou que fosse, hein? – respondeu Ash.

Era mentira lógico, uma boa mentirinha às vezes caia bem para evitar uma briga feia com Janne. O fato era que Janne tinha seios fartos até demais para uma menina de 21 anos, sempre tivera seios grandes, quando era adolescente tinha o maior busto da escola e tinha que aturar piadinhas dos adolescentes da época que a chamavam de coisas como Fábrica de Leite e Menina Boing-Boing. E até hoje, anos mais velha, odiava completamente comentários do gênero e tentava de tudo, esconder o formato de seus seios por baixo de blusas grossas e camisas largas.  Ela voltou a olhar para o trânsito, puxou os óculos de sol que estavam presos em seu cabelo em direção aos olhos, respirou fundo duas vezes e não disse mais nada. Ash entortou a boca em desgosto, mal começara a sair da sua cidade para passar umas semanas fora do ritmo agressivo e estressante da cidade e já podia começar a sentir falta dela. Já começara bem, brigando com sua irmã, o que viria depois? Duas horas presos no meio da estrada por causa de ter atolado na lama? Ser abduzido por OVNIs?

Recostou sua cabeça no banco e logo a ideia de uma música para quebrar o clima, seria bem-vinda. Esticou o corpo e ligou o rádio esperando algum protesto de Janne, olhou para ela e percebeu que ela deixou escapar um sorriso pequeno. Ele sorriu e sintonizou numa rádio de rock e encostou a cabeça novamente no banco e puxou o zíper da jaqueta escondendo sua camiseta do AC/DC. E imaginou-se viajando por uma estrada longa, um longo caminho com sua irmã para a terra prometida.

Nenhum dos dois disse mais alguma coisa durante bom tempo de viagem.