Ei baby, está tudo bem? Por que eu realmente não sei o que dizer?
Seus olhos estão sujos e sua boca
Tão macia, está cheia de merda.
——— Bill Rockenfin – Ballad of the Dirty Bitch.

Tentou abrir os olhos, mas não conseguia, apenas a escuridão preenchia sua consciência. Seu corpo era apenas uma massa lânguida esparramada por um leito velho de hospital. Ouvia o vago som de um bipar de uma máquina de frequência cardíaca e um barulho lento de um respirador artificial bombeando o ar aos seus pulmões fragmentados, seus músculos estavam entorpecidos e sua garganta inchada com a cânula que atravessava sua traqueia.
Momentos passaram-se.

(Segundos… minutos… horas???)

Sua mente vagava entre o limiar da consciência onipresente dos fatos e do abraço entorpecente do coma. Nada. Nenhum som diferente, nenhuma resposta corporal, nada. Uma porta ao fundo abria-se e passos lentos e agudos como os de um salto alto ecoaram pelo local, o som de uma cadeira rangendo e uma respiração profunda veio de sua esquerda. Metal rangendo contra uma superfície e uma pequena risada.

– Me desculpe por te acordar senhora. Eu… – disse numa voz calma e feminina o suficiente que lembrava vagamente numa vendedora de livros que passara a frequentar toda semana a porta de sua casa e…

– Senhorita – interrompeu outra voz, arrastada e um pouco áspera.
A escuridão abrira numa foto polaroide ampliada cem vezes numa tela widescreen, uma imagem de uma criança morena passou em sua mente ligo consumida por dúzias de chamas tão rubras quanto o brilho no cabelo negro da criança. – Acho que não sou tão velha assim, sou? –

– Não, com certeza não é – a outra voz dera uma risadinha nervosa – Olha me desculpe, é o costume.

– Pareço assim tão velha é?

– Não, não… eu…

Silêncio

De repente a voz da esquerda desembestou numa risada.

– Fique calma, estou apenas brincando com você. – Sentiu algo tocar onde deveria estar sua mão esquerda. Onde deveria, pois naquelas circunstâncias, seu corpo dopado de morfina e relaxantes musculares, não conseguia saber onde ficava sua própria cabeça. – Então, alguma notícia sobre o estado de saúde dele?

Saúde? Dele? Ele estaria machucado, teria sofrido um acidente?
Não era óbvio demais, ele estava num hospital… não estaria? Seu corpo começou a doer e seu corpo a retorcer devagar debaixo do lençol, tentou gritar, mas seu grito fora apenas um gemido
breve abafado pelo pulmão artificial. Memórias em branco, choque anafilático, nervos a flor da pele.

Dor.

Apenas a pura e simples amiga do masoquista solitário, preenchendo cada centímetro daquele corpo mórbido e dopado.

Dois faróis altos e a cor vermelha.

Foi a ultima coisa que pensou antes de perder a consciência.

————————————————————————————————————–

Quando Alan acordou aquela manhã sua cabeça estava uma massa confusa de ressaca após uma noite de bebedeira e infamidades, seu amigo Ericson havia dado essa festinha particular aos amigos para celebrar sei-lá-o-que, e ele havia bebido, bebido demais e talvez fumado um pouco daquela erva-doce que faz todos sorriem. Sentiu uma vontade tremenda de vomitar ao tentar levantar sua cabeça, um enjoo forte que fizera seu estomago deturpado revirar e sua visão parecer uma ataque de labirintite, paredes afastavam-se e contraíam como músculos em câimbra, as luzes estavam fortes, queimando sua retina devagar como a chama de um fósforo que consome lentamente o palito, tornou a fechar os olhos novamente e pensou apenas que seria mais um dia daqueles.
Olhou para a escrivaninha, todas as folhas estavam lá, empilhadas num bolo estranho e disforme, algumas espalhadas pelo chão e outras presas a pequenos percevejos e agulhas a um painel de cortiça. Balançou a cabeça, arquejando o corpo e colocando a cabeça para fora da cama, tentou respirar fundo, engasgou, um arroto alto escapou de suas entranhas e vomitou. A festa dissolvia em sua garganta conforme o bile amarelado de seu recém-detonado fígado saía em jorros ácidos e caiam no chão.

– Oh não, Alan! Não me diga que você gorfou no meu tapete? Você tem noção de quanto eu paguei nele? – Veronicka aparecera na porta, usava uma camisa amarela do Sex Pistols e uma calça jeans cinza, um cinto preto circulava sua cintura apenas de enfeite já que em sua magreza, a calça em si ameaçava cair de qualquer forma. Uma de suas mãos estava apoiada no batente da porta enquanto a outra segurava um garfo de cozinha.

Ele sabia o quanto havia custado aquele tapete porque ele mesmo havia-a acompanhado no dia para um pequeno bazar de arrecadação de fundos para uma causa beneficente, seja-lá-qual-for. Eles procuraram e reviraram o bazar atrás de bugigangas e tralharias que poderiam usar de enfeite e decoração a sua nova moradia. E Veronicka havia escolhido esse tapete de cor vinho escuro com desenhos rústicos em cinza claro, ele brincou alegando que aquele tapete era mais feio que aquele tapete que tinha na casa da mãe dele que desde pequeno existia na porta dos fundos, cujos dizeres “Adeus e tenha uma boa viagem” a tempo já haviam desaparecido. No final ela trouxe aquele tapete para casa pelo preço de catorze e noventa. Ele nunca gostou daquele tapete.

– Desculpa Vecka, mas creio que… awww – Alan levantou a cabeça e pôs a palma da mão sobre a testa, estava gelada, mas a sensação de vertigem e pressão não cedera mesmo após vomitar.

– Alan, isso que dá tomar vodca que o Ericson lhe deu. Aliás isso que dá tomar qualquer coisa que o Ericson lhe dá. Sei lá onde ele arranja essas porcarias, pois toda vez que você teima em tomar, você só falta soltar suas
tripas pela goela.

– É eu sei… awwwn. Eu estou um puro bagaço. –

– Puro bagaço né? Pelo menos não estava assim até hoje de manhã quando quis trepar feito macaco no cio. – ela sorriu – Bem de qualquer forma, melhor você ir tomar um banho para vê se melhora, enquanto eu limpo essa nhaca que tu fez e termino o café.

Ele sorriu, enquanto ela lhe fazia uma mesura estranha em direção a porta do banheiro e vinha em sua direção, pegou seu braço e cuidadosamente tirou-o da cama evitando de pisar no tapete sujo. Ele ficou sentado na privada cabisbaixo, enquanto ela media a temperatura do chuveiro. Seu pé desnudo estava esticado como a de uma bailarina

– Consegue tomar banho sozinho? – perguntou Vecka. Ele fez que sim com a cabeça vagarosamente – Ok, então xô, xô. Ela fez um gesto apontando para o chuveiro enquanto dirigia-se para a porta do banheiro, respingos de água caiam sobre seu rosto, mas ele pouco se importou, nem ao menos piscou. – Vou encostar a porta, qualquer coisa é só gritar ok? – Ele ficou ali sentado, ouvindo a lenta respiração e sentindo a cabeça martelar insanamente.

(Cuckoo-cuckoo, eu explodo sua maldita cabeça, não é? Como se sente sendo minha vítima hoje? Cuckoo!)

Ele tirou a camiseta do Led Zeppelin e tacou-a no chão, passou as mãos pelo cabelo oleoso e deslizou-a para a face, roçando a barba de cinco dias. O que eu fiz ontem? Porque eu não me lembro de nada?

De fato dizem que bêbados esquecem o que fizeram devido a atuação do álcool em seus organismos, mas com Alan essa regra nunca servira, ele podia estar o mais chapado possível que ainda podia lembrar-se das inúmeras cagadas que fizera. Mas essa noite em particular não lembrava do que fizera na festa de Ericson nem ao menos de ter trepado feito um macaco no cio com Veronicka. Era tudo muito estranho. Nunca pensara que sua memória infalível deixara-o no escuro.

Black-out por completo.

Tirou a cueca e deixou-a estirada do lado de fora do box. Entrou debaixo do chuveiro, levantou a cabeça e deixou a água correr sobre o rosto, prendendo a respiração, esperando a sensação de tontura e vertigem escorrer pelo corpo, passar por entre seu pênis flácido e ir ralo abaixo passando pelos seus dedos pálidos. Nada. Aquela sensação doentia de um esquecimento enjoado não passava de forma alguma, sentou no chão do boxe pegou um pequeno pedaço de sabonete que estava jogado ao lado da roldana de metal da porta do box, ensaboou os braços e subitamente bateu a cabeça na parede. Respirou fundo e fechou os olhos, querendo lembrar-se de alguma coisa.

Nada.

Absolutamente nada.

———————————————————————————————————————

O sol iluminava através das persianas brancas o quarto 302, um vaso de porcelana brilhava com um fio de luz que passava sobre sua superfície lisa, lírios brancos balançavam suas pétalas devagar com uma suave brisa que atravessava uma fresta aberta na janela. Uma música lenta e melosa dos anos 50 tocava no pequeno rádio que havia ao lado da cabeceira da maca onde o homem estava deitado, sua respiração era lenta e profunda, sua cabeça estava enfaixada e um de seus olhos estava coberto de gazes e rodeado por uma faixa escurecida de sangue. Cortes, arranhões e pontos secos sobre a pele percorriam quase todo seu rosto e pescoço.

Uma enfermeira de cabelos curtos negros limpava seus braços com uma esponja umedecida, tomando cuidado com os cortes e sulcos profundos em sua pele, a enfermeira evitava olhar para o rosto semi-desfigurado por cortes e pontos do jovem, em todos os dezesseis anos de sua função, ela evitava ver coisas assim, a imagem de um jovem depois de um acidente que quase levara sua vida e seu corpo transformado num monte de cortes, fraturas e machucados era quase que insuportável.

– Ele teve uma sorte de não ter morrido naquele acidente. – disse a enfermeira a outra mulher que estava sentada numa poltrona, ela tinha um pequeno livro em seu colo, olheiras fundas circulavam seus olhos e vestia a mesma roupa durante dias. O cabelo escuro jogado sobre o rosto de desespero e culpa.

– Eu sei. Eu sei… – respondeu a mulher loira não desviando o olhar para o homem deitado na cama.

A enfermeira deu de ombros e continuou a limpar os braços do homem.

——————————————————————————————————————

– Está tudo bem aí? – gritou Vecka. Alan desencostou a cabeça da cadeira, Veronicka balançava a mão na frente de seu rosto. – Alô, alguém ai? Tá chapado ainda?

Alan balançou o rosto, Vecka estava usando um vestido curto e decotado cinza, seu cabelo negro estava penteado para o lado e a parte esquerda estava atrás de sua orelha. Ficou olhando ainda embasbacado para o contorno negro dos olhos de Veronicka. Uma música leve dos Rolling Stones saia de duas caixas de som ao lado da mesa onde estavam sentados. Olhou para os lados, desconfiado, estava num pequeno bar, numa área reservada num pequeno galpão construído acima do bar. Lá embaixo pessoas dançavam amarrotadas ao mesmo som. Amarrotadas e espremidas como formigas. Ele não lembrava porque estava ali.

Uma chuva pesada caia do lado de fora, o barulho das gotas pesadas pareciam mais nítidas que a própria música vinda das caixas acústicas. As latas de cerveja em cima da mesa, o cheiro do cigarro recém-apagado no cinzeiro. Alan coçou a têmpora esquerda, uma dor de cabeça começava a se formar, aquela dor chata de sempre, a dor da confusão.

– Alan, viu você está bem?

– Hã? Claro, claro. Porque a pergunta?

Vecka olhou nos seus olhos e deu um sorriso de escárnio – Precisa dizer? Você parece um junkie louco que tá viajando no ácido. Tá mais pálido que um anêmico, o que há contigo?

– Eu não tenho ideia…

Um homem com um avental preto e uma gravata vermelha, aproximou-se do casal com duas bandejas de aperitivos. Frango empanado, uma porção de batatas holandesas e dois grandes copos de chope gelado, Alan não respondeu nada ao homem ao colocar as bandejas na mesa, Vecka sorriu e disse obrigado e deu um tapa na mão de Alan que estava sobre a mesa.

– Mas que infernos está acontecendo com você Alan? Até agora pouco estava sorrindo feito um babaca paspalhão, agora parece ter visto um fantasma e estar todo torto como uma maldita pintura do Picasso?

– Eu, preciso ir ao banheiro – respondeu Alan se levantando bruscamente e quase derrubando o prato de frango. Desviou da mão de Vecka que tentou segurar sua blusa e passou pelo corredor apertado de mesas sem preocupar-se esbarrar ou não nas mesas. Alan abriu a porta que levava a uma escadaria onde alguns jovens bebiam e beijavam uns aos outros ao som de uma banda punk. Desceu a escadaria pulando de dois em dois os degraus, sua cabeça girava e a cada batida da bateria e a cada choro da guitarra mais a dor de sentir sua cabeça sendo aberta por uma serra aumentava. Um jovem de vestes esfarrapadas e coturno ria com duas meninas mais baixas que ele, e nem percebeu quando Alan passou correndo ao seu lado e abriu a porta que levava aos fundos do bar com um chute.

Ele
———- estava caminhando pelo bosque àquela hora da noite, seu saco doía e sua bexiga parecia querer estourar de tão inchada, queria achar um lugar suficientemente longe da festa e não tão longe para se perder. Queria dar uma boa mijada entre os arbustos e não achava que seria uma boa ideia vagar pelo bosque depois do sol se pôr, após caminhar um bom tempo, tropeçando em algumas raízes e alguns galhos secos, caiu numa pequena vala, não se machucou, mas foi o suficiente para deixá-lo estirado na terra molhada. Sem forças, sentiu o corpo relaxar e o calor da urina escorrendo pelas pernas aquecer brevemente sua virilha e coxas. Levantou a garrafa de scotch que levava na mão direta e bebeu dois longos goles, uma bela noite aquela, ele deitado ali, mijado e sujo de terra.

Enquanto os outros se drogavam com as coisas mais pesadas e alucinógenas que ele podia imaginar e fazendo sexo, numa orgia desenfreada de bundas e pernas enroladas umas as outras como cobras em cópula. Mas não, ele estava ali no meio da merda, possivelmente ficaria ali por um bom tempo. Sentiu aquela dor no saco e suas mãos desceram para as calças, desabotoou a calça e tirou o pênis para fora. Sorriu ao sentir o gelado de sua mão no pênis úmido e se masturbou ali mesmo, pensando numa loira com suas tetas enorme balançando e batendo em seu rosto. É. Seria uma coisa boa ter tetas daquelas como travesseiras.
Gemeu ao sentir o esperma quente fluir e pulsar de seu membro como torpedos brancos. Tomou mais um gole de scotch e arrotou.

– EEEEháaaa meu amigo, não há nada melhor do que eu e você nesse campo de fodidos. – gritou para a Lua, levantando a mão com a garrafa para o alto. Fazia tempo que não pensava no que fazer. Estava com o que? Entrando na casa dos trinta e o que havia feito da vida até então? O que realmente tinha? Um pequeno apartamento que rachava o condomínio com uma menina que conhecera numa festa e que fazia o melhor oral de todos, um corvette 85 caindo aos pedaços e um pulmão velho de tanto fumar qualquer coisa que queimasse e um fígado pré falência de tanto destilado. Fechou os olhos e riu, riu, riu até sentir urina escorrer em suas pernas pela segunda vez e os músculos de sua barriga queimar de dor. Trinta anos e nada. Uma gota d’água caiu em seu rosto. Logo várias lavavam seu corpo, quando percebeu uma torrente caia.

Levantou devagar, sentindo o corpo pesado e arrastou-se bosque adentro totalmente perdido. A chuva caia pesada em seus ombros e envolvia seu corpo como um abraço gélido, fazendo seu corpo pesar mais e
mais, sua cabeça claramente infectada pelo álcool, raciocínio lento, reflexos rápidos como um vegetal, o mundo era uma câmera lenta de sons adiantados. Cada movimento era um pisar de um gigante, o mundo tremia aos seus pés, sim, ele era o Fodão e o mijão. Desceu devagar em direção ao rio, escorregando pelas folhagens mortas e lama, ouvia o barulho do rio fluir insanamente pelo bolsão e descer até o lago, seu tamanho aumentava gradativamente conforme a chuva aumentava, mas a barragem de pedras que havia sido feita meses atrás, fornecia segurança pelo menos para ele que era o fodão. Seu pé escorregava nos limos formados ao redor das pedras e nas folhagens marrons úmidas, seguiu pela margem cantando uma velha música de pub que ouvira numa de suas viagens pelo interior, algo a ver com um homem e seu pato que bebia destilado como um homem.

Escorregou quando tentava acompanhar o rio que deslizava para a esquerda, uma pedra rolou ao seu lado e caiu no chão de costas, soltou o ar numa arfada pesada e ficou ali, borrões pretos formavam na extremidade de sua visão e sua cabeça latejou pela primeira vez, tentou levar a garrafa à boca, mas somente o gargalo estava preso a sua mão, o resto da garrafa espatifara-se na queda e seus fragmentos espalhavam-se ao redor de seu lado direito.

– Ai carai, mas que po… – parou ao olhar para trás, grossas velas vermelhas mantinham-se acesas mesmo expostas à chuva que era incessante, formavam um caminho sinuoso entre as árvores, alguns totens talhados toscamente no centro das árvores mais grossas como um pequeno santuário, tinham sombras em suas faces horrendas que traziam um aspecto de lividez além do normal. Uma música constante chegava distorcida aos ouvidos dele, uma mistura exótica de percussão com um canto feminino suave e rítmico. Levantou-se devagar, a baba escorrendo no canto esquerdo e os olhos semicerrados dando-lhe a aparência mais débil possível, andou de gatinhas por um tempo até poder encontrar um toco de árvore onde pudesse apoiar-se decentemente e levantar. Um enjoo tomou conta de sua cabeça, tudo virou ao contrário e o estômago revirou, torceu, chiou, mas nada além de saliva e um pouco de bebida saiu de sua boca. Caminhou pelo que pareciam horas entre aquele caminho bizarro de velas e seguindo como Alice atrás de um coelho, só que não havia coelho ali, apenas ele correndo atrás de sua alucinação.

Alucinação?

Os totens pareciam maiores à medida que ele adentrava aquela parte do bosque, que mais parecia uma floresta de tão densa, a música aumentando e diminuindo e os ruídos de televisão chiando. Mas não havia televisão por perto, um suor estranho e mais frio que a água que caia sobre seu corpo fez suas pernas tremerem. Espirrou e sentiu o nariz escorrer, fungou e continuou a caminhar, as pernas vacilantes, trôpegas e o equilíbrio alterado pelas doses faziam no sentir cada vez mais nervoso. Caiu novamente de face no chão e respirou pesadamente, o nariz ardia muito e a face enlameada ficara adormecida. Levantou a cabeça devagar, praguejando baixinho e arrastou seu corpo pelo arbusto enorme a sua frente.

Eles estavam adorando aquilo.

A mulher em cima do homem cavalgava sobre o falo ereto do parceiro, enquanto torcia sua coluna para trás e engasgava-se com o pênis do outro fazendo barulhos esdrúxulos que lembravam a risada do Pato Donald. Os seios empinados e molhados eram sugados por outra mulher que segurava um grande falo de cavalo talhado em madeira em suas mãos como uma espada. Estavam trepando ao redor de um largo círculo de pedras brancas e negras, uma lona vermelha e preta cobria aquela área da chuva, um homem tocava tambores africanos freneticamente enquanto recebia uma chupada de outro homem que se escondia entre os tambores. Duas mulheres beijavam as pernas de outra mulher amarrada numa espécie de crucifixo invertido feito de madeira, ao fundo, erguido num altar de pedra mal lapidada, enquanto faziam pequenos cortes em sua pele com adagas sarracenas. Dois homens altos e musculosos fodiam dois homens, segurando-os pelos ombros e deixando-os pendurados em seus pênis descomunais, numa empalação anal, mas ao invés de dor, era prazer que brotava em seus rostos, um êxtase que os fazia virar os olhos e pender as línguas para fora.
Uma mulher brincava com um cachorro que estava amarado em uma das extremidades do círculo, deixava-o lamber sua vagina, enquanto bebia o esperma que escorria da vagina de outra mulher, num cálice branco. A música continuava e as sombras pareciam dançar conforme o vento assoprava as tochas que ficavam nas extremidades do círculo. Os gemidos, o cheiro forte de sexo, sexo corrupto e doentio, viciante e o cheiro de litros de fluídos que já foram derramados naquele local. Sangue, esperma, lubrificação vaginal, suor, saliva. As risadas, os gritos de prazer, os choros de dor quando o sangue escorria entre suas pernas, ou quando um esfíncter era forçado a abrir.
O cérebro dele doía, parecendo derreter e escorrer quente pelos tímpanos e sujar os ombros. Os sons misturavam-se e logo pareciam ter cores, cores vermelhas e cinzas, cheiros putrefatos e carcinógenos.

Estalos de madeira a queimar, sangue escorrendo no nariz, chão retorcendo em convulsões e raízes de árvores transmutando-se em pedaços de vermes, sanguessugas marrons que subiam em sua carne e entravam por seus orifícios; levantou a cabeça e a música parou, todos pararam seus rituais e colocaram máscaras que lembravam corvos brancos e juntaram-se ao redor da mulher crucificada, cada um segurava a genital do outro e levantava sua mão esquerda para o alto. Gritava e rugiam, vociferavam palavras incompreensíveis do livro de Enoch que beiravam entre o raciocínio e o instinto animalesco mais primitivo. Uma figura com silhueta feminina caminhou em direção ao altar carregando consigo o enorme falo de madeira entre as mãos, cuspira nele e erguera em direção à mulher crucificada para beijar, um sorriso negro destacava no rosto avermelhado da moça.

Um sorriso de satisfação e êxtase devotado aos prazeres da flagelação e da submissão. Dois dos homens mais fortes e altos encaminham-se cada um para um lado e oferecem ajuda para levantar o falo de cavalo e encaixá-lo na vagina da mulher crucificada.
Seu sorriso muda de forma, murchando para uma cara desesperada.
“Não… Isso não foi o combinado” — ela vocifera, muito inútil para as risadas de escárnio que os outros faziam. enquanto deitavam-se no solo e davam continuidade ao show de perversidade, como animais num coito que fora interrompido por um tempo até ganharem força para mais uma. A figura feminina pega um martelo e bate no falo, forçando sua entrada no útero da mulher que grita e urra, conforme o sangue escorre de sua vagina. A figura levanta as mãos e urra algumas blasfêmias e bate com mais força no falo. Urros de dor e de prazer mesclados. Tambores voltando a tocar. O cheiro, as cores, a tormenta novamente o cerca e o faz prisioneiro de seus sentidos entorpecidos.

Ele grita, grita o mais alto possível. Os tambores param e as máscaras viram em sua direção.

Todas.

Ele sente a merda escorrer quente em suas pernas.

Ele levanta torto e corre, ou pelo menos tenta.

Suas pernas estão dormentes, frias, seus pés latejam.

O chão está lamacento e o lugar escuro, ele ouve o som dos gritos e das folhas movimentando-se conforme os espíritos perturbados por interromper seu ritual seguem-no.

Ou seria apenas o som do pânico aproximando-se, brincando com a paranoia que se instalava lentamente em sua mente?

O som do medo sussurrando seu poder em seus ouvidos, a cada passo em falso em direção ao escuro, ao coração da escuridão e a vontade de desaparecer. De nunca estar ali.

O som de seu coração batendo forte em seu peito e estourando em seus tímpanos.

As folhas molhadas e finas lacerando seu rosto e braços.

A sensação de perda e de desorientação a cada minuto que corre por aquela selva, correndo de algo, de todos e talvez de nada.

Talvez de si mesmo…

Não percebe que o caminho o levava para uma escarpa, uma descida em queda livre que terminaria num barranco e desembocaria diretamente no rio cheio. Ele escorrega seu corpo paira no ar sem resistência, sua mente é um turbilhão e sente vontade de vomitar até a alma sair pelo ânus. Seu corpo bate na terra lamacenta e sente sua perna estalar conforme o tornozelo se desloca e a dor fisgante subir, rachando a Tíbia em pedaços psicológicos e torcendo a rótula como um macarrão, a cabeça chocando-se com uma pedra larga e arredondada, o mundo apagando, o vômito parando no esôfago e o corpo caindo rio adentro desfalecido.

————————————————————————————————————————————

– Então, nós vamos nessa festa hoje, não vamos? – perguntou Vecka que acendia um cigarro.

– Claro, onde era mesmo? –

– No sítio do Ericson. Parece que depois que ele ganhou naquela loteria, ele só quer saber de sexo, drogas e bebida barata.

– Por acaso tem jeito melhor para um homem quase cinquentão, gastar seu dinheiro que ele nem tem nem aonde colocar, senão no rabo de algumas strippers? – perguntou Alan olhando para ela.

– Tem. Ajudando os enfermos e as crianças na África e porque não o Greenpeace?

– Greenpeace? – Os dois entreolharam-se por um tempo e riram feito idiotas.

– Vecka? – continuou Alan.

– O que?

– Não fume dentro do carro…

————————————————————————-

– Não sei o que aconteceu… – começou a mulher. – Foi rápido, a comoção, logo o grupo de pessoas se reunindo ao redor de uma área. – ela deu seu testemunho confuso ao detetive, que pacientemente anotava em seu bloco de notas de couro, de forma analítica, os fatos mais relevantes ditos por ela. Quando já achara que era o necessário, fechou o pequeno bloco e deixou-a tomar fôlego, colocou uma mão em seu ombro esquerdo e disse devagar num tom consolador:

– Senhorita Blüntsberg, não se apresse, respire, dê tempo a sua mente. – o Homem de casaco preto sorriu, um sorriso simples de conforto. – Estarei aqui fora entrevistando outras pessoas sobre o estado de seu namorado, tudo bem? Ela meneou a cabeça e voltou-se para o quarto, fechou a porta do apartamento 302 e caminhou em direção ao leito dele, seu rosto estava inchado e deformado. Quando chegou ao hospital soube que Alan estava na sala de cirurgia fazendo um procedimento de emergência para reduzir a pressão intracraniana, causada pela contusão durante a queda. Olhava agora para a cabeça enfaixada de Alan e seu rosto diferente daquele Alan que ela costumava ver todo dia. Arranhões espalhavam-se pelos lábios tornando-os carne viva, hematomas roxos e negros transformavam suas bochechas em um mapa cartográfico e os ferimentos costurados, as estradas
férreas. Um olho parecia ter ficado do tamanho de uma bola de golfe e estava brilhando de suor.

Alan mexeu-se devagar na maca, mas mostrava que já estava profundamente imerso naquele coma induzido pela medicamentação, a respiração pesada fluía devagar e cada vez mais fraca. Seus batimentos cardíacos no monitor de BPM demonstravam que estava a 72 batidas e reduzindo devagar, Veronicka respirou fundo. Alan iria que morrer de qualquer forma, se não fosse no hospital seria lá fora. E lá fora eles seriam muito mais cruéis do que fizeram com ele no dia que ele descobrira “o Grupo”. O celular tocou em seu bolso, ela olhou para o SMS mandado pelo líder e fechou os olhos apertando o aparelho o mais forte possível.

Ela respirou fundo e abriu os olhos decidida, iria acabar com isso tudo agora, não queria ficar perdendo mais tempo naquele lugar, fingindo passar-se de vitima. Ela temia que se ele sobrevivesse “o Grupo” viria atrás dela e iria pedir satisfações por ter o deixado escapar com vida. Veronicka passou a mão entre o cabelo negro e jogou-o para trás, caminhou até a pequena poltrona e pegou seu livro da Pippi Meialonga, abriu-o devagar e tirou de dentro uma seringa de 10ml e uma ampola de plástico contendo cloreto de potássio.
“Injete essa quantidade na veia dele, a parada cardíaca será quase imediata. – Disse o líder a ela. – não se preocupe, não deixará vestígios no laudo da autópsia.”
Ela engoliu o fleuma que se formara em sua garganta, como se uma pedra úmida bloqueasse sua faringe. Olhou para a porta e correu para trancá-la, não podia correr mais riscos. Desligou o alarme de emergência no aparelho de BPM e deixou as persianas semicerradas, olhou para Alan e deu um beijo em seu rosto.

– Alan, me desculpe…

Colocou lentamente a seringa no dispositivo de introdução de soro e medicamentos e injetou o cloreto de potássio. Alan respirou profundamente e tremeu, um de seus olhos abrira como se acordasse de um pesadelo e se focara em Vecka, depois no teto, lagrimas escorriam de seu olho. A parada cardíaca não durou mais de 15 segundos e o monitor demonstrava a flatline vermelha cortando de um lado a outro.

“Alan me desculpe Alan me desculpeAlan medesculpeAlanmedesculpeAlanmedesculpemedesculpedesculpedesculpe…”

Ela desceu as escadarias devagar, contendo o choro em sua face. A porta estava aberta e contornara o corredor indo até a outra ala do Hospital para evitar o detetive Marlon. Pelo menos por enquanto tudo estava pronto, ela fizera sua parte, eliminara qualquer vestígio de testemunhas que podiam contar sobre “o Grupo”, fizera tudo o que o líder mandara fazer. Mas com remorso de ter que eliminar Alan, ela o amava, mas sua vida valia mais. Muito mais.

Ela correu ao carro que estava estacionado na garagem do hospital e abriu a porta do passageiro, Ericson estava ali no volante ouvindo seu Ipod. Ela não disse nada, nem ao menos olhou em seu rosto. Ele sabia que ela havia feito o que mandara. Eles sempre faziam. Afinal ele era o líder. Podia comprar sexo, drogas e mulheres. E a devoção alheia, porque não?

Afinal dinheiro fala mais alto do que qualquer coisa.

Não é mesmo?

Só isso basta, não é?

Ele acelerou o carro e pegou a estrada 98 em direção ao norte.

———————————————————————————————————————-

– Era uma pena ter terminado assim. Não queria mesmo que aquele bisbilhoteiro do Alan tivesse colocado o focinho para dentro de nossa reunião.

– Ericson acendeu um cigarro Palm Red e apoiou a perna perto do capô doa BMW. – Escrota a sua ideia de trazê-lo aquele dia.

– Escrota?! Você fez questão de trazê-lo para sua festinha de merda! E para aquela reunião do caralho, não precisava ser assim, não precisava ter matado ele! Eu não precisava ter matado ele! Droga Ericson, eu matei o Alan, eu matei a pessoa que mais amava!

– Foi a decisão do Grupo. Você sabe que não podemos interferir nas regras do Grupo.

– O Grupo, O Grupo fez isso, o Grupo fez aquilo; grande bosta Eric. Olha desde que você começou a se envolver nessa merdinha de orgia doida, você não tem batido mais bem da cabeça sabe? Nós podíamos ter colocado ele como um de nós né, ele não tinha nada demais, ele sabia contar segredo, ele…

– Não é questão de saber guardar segredo Veronicka, bem, isso também faz parte, mas em geral você sabe muito bem o que é o Grupo. – Esticou a mão e deu duas batidinhas no cigarro jogando as cinzas ao vento, deu outra baforada no cigarro e pigarreou – Não é apenas um grupo de tarados e pornográficos que se juntam para trepar minha cara. São políticos, advogados, juízes, donos de imóveis e grandes conglomerados corporativos e empresários multimilionários. Nobres e ricos estrangeiros. Todos frequentam o Grupo para desfrutar dos prazeres que lhes são negados, desfrutar de nossa filosofia livre e anárquica e esquecer-se de suas identidades mundo a fora. Esquecer-se das pressões de seus trabalhos, da vida famosa, de suas famílias e dar abrigo ao ser primordial, o ser animal que existe em cada um de nós. Foder e ser fodido, sem represarias, sem preocupações, preconceitos ou distinções, expor seus fetiches, sejam lá quão doentios for. Você sabe muito bem disso Veronicka LeSalutte, viciada em cocaína.

– Jamais fale esse nome Ericson! – Vecka caminhou em sua direção, os cascalhos no solo perto do precipício fronte ao mar rangiam sob seus pés. Levantou a mão e tentou dar um tapa no rosto de Ericson, que segurou sua mão antes de chegar a bochecha. – Eu não sou uma LeSalutte. Nunca fui.

– Mas é por causa de seu sangue bastardo e da relação de seu pai com uma das membras do Grupo que você pode participar. Você sabe muito bem disso. – O olhar de Ericson tornava-se naquela tarde nublada um ar penetrante e frio. Um olho de uma pessoa que faria de tudo para manter seu segredo guardado e faria sem remorso.

– Eu não quis participar de tudo isso. Eu, eu fui tragada para dentro de tudo isso. Você Ericson – Vecka soltou de suas mãos e caminhou até perto da escarpa. Ouviu o som das ondas quebrando perto do rochedo e respirou fundo antes de continuar. Senta angústia pela situação, angústia e um ódio crescente por Ericson. – Você Ericson pensa que tem direito de estar entre eles, mas você só está porque não passa de um Noveau Riche, um alguém que possa dar um terreno para que possam fazer tudo que quiserem, um laranja para quando a bomba estourar.

– Não me venha com essas merdas Veronicka! – Ericson tacou o cigarro no chão, e deu um tapa na carroceria da BMW – Não me diga que você não aproveitava quando usava aquela túnica? Que você não amava tem outro homem a não ser o merdinha do Alan dentro de você, de quando empalava aquelas mulheres?! Não cuspa no prato em que comeu, só porque Alan não podia pertencer ao Grupo. Você não passava de uma maldita junkie. Nós te bancamos, enquanto sua mãe bebia e desmaiava no sofá da sala e…

– Não fale da minha mãe Ericson. Sua mãe não passava de uma vadia suja antes de ter o derrame…

Ficou tudo muito quieto. Um som de tiro ecoou alto na estrada 98. O corpo de Vecka caiu devagar da escarpa e caindo nos pedregulhos, distinguindo o vermelho de seu sangue com o vermelho de seu vestido. Ericson ficou de cócoras perto ao precipício e respirou fundo. Olhou para a .45 em sua mão e sorriu, levou sua mão esquerda ao bolso da calça e discou redial no celular.

– LaSalutte? – disse uma voz grossa, áspera de um senhor que aparentava ter chegado à senilidade.

– Está pronto. – respondeu Ericson. Ouviu as respirações profundas do outro lado da linha e ficou quieto até ouvir uma resposta.

– Não teve chance, não é?- Ericson desligou o telefone.

– Não teve senhor, ela recusou e ameaçou a integridade do Grupo. Tentou fugir. – levantou-se e caminhou devagar em direção ao carro. – Se o meu, digo, nosso dinheiro não pode comprar, é melhor que seja apagado então. Vermes devem ficar fora do Grupo. Vermes como aqueles dois. Sim, eles lá e nós aqui. – Sua cabeça doía, iria para casa agora beber e foder alguma vadia só por diversão. Desligou o telefone celular e entrou no carro e acelerando saiu novamente pela estrada 98.

Pessoas como ele só sabem de duas coisas: Dinheiro é Poder.

E Poder é poder foder os outros o quanto quiser…

Só isso basta, não é?
—- Arthur Passos 09/04/2012